
Paris por Beatriz Glória
Psicanalista de formação, Beatriz Glória se interessa por arte, fotografia, filosofia e pelas histórias que as pessoas deixam para trás. Em Paris, seus caminhos passam por museus, mercados de pulgas e cemitérios — lugares onde memória, tempo e afeto se encontram. Entre as Nymphéas de Monet, os antiquários do Marché aux Puces e os túmulos de escritores e artistas em Montparnasse, ela montou uma coleção de encontros. Com artistas, colecionadores e pessoas de outros tempos. Porque sua Paris não é feita apenas de lugares. É feita das pessoas que continuam habitando esses lugares, mesmo muito depois de terem ido embora. Sem ser São Paulo, Paris é o único lugar em que consegue se imaginar morando. "Mexe num lugar diferente, como nenhuma outra cidade jamais mexeu."

Musée de l'Orangerie
O Musée de l'Orangerie foi um dos lugares mais especiais que visitei nessa minha ida a Paris. Apesar de ter todas essas coisas meio instagramáveis em volta — muita gente querendo tirar foto das Nymphéas do Monet — fazia muitos anos que eu não parava em um lugar e simplesmente sentava. Tem uns banquinhos ali nas duas salas onde ficam as Nymphéas e eu fiquei observando. E foi mágico.


Eu fiquei obcecada por uma florzinha que passava despercebida em um dos painéis e guardei com todo carinho aquela florzinha na minha cabeça. Porque, sei lá, não sei... ela era muito singela.
Acho que tem isso. Uma estrutura bonita e aquelas duas salas, assim... Eu acho que onde estão as Nymphéas, do Monet, elas beiram o etéreo para mim.
Tem uma coisa bem interessante, porque o Monet pintou essas obras em um jardim que fica mais distante de Paris. Um dia eu quero muito conhecer. Mas é como se esse museu estivesse ali como um microcosmo de onde devia ser esse lugar que o Monet pintava, sabe?
E é uma coisa etérea mesmo. É isso: o singelo do lago, o singelo das flores, dos tons...

Marché aux Puces de Saint-Ouen
Pelo que a gente viu, o Marché aux Puces é o maior mercado de pulgas do mundo. E me pareceu enorme mesmo, porque a gente passou sete horas lá e, ainda assim, não conseguiu ver todos os estandes.
A gente foi um pouco com a intenção de "vamos ver se a gente acha alguma coisa legal lá", mas conforme fomos passando, fomos percebendo que ali tem de tudo. Tem antiquários, brechós, objetos de outros séculos e coisas de outros tempos sendo vendidas.
Mas também acaba sendo um lugar para aprender sobre história. Sobre cuidado também. Sobre memória. Foi muito legal viver algumas coisas e pensar: "Caramba, quantos anos tem isso?".
A gente fez sete dias em sete horas lá e não esperava ficar tanto tempo. A gente se surpreendeu. É um lugar... é um labirinto, né? E é um lugar tão enigmático e tão autêntico que eu tenho que fazer uma viagem para Paris só para isso.
Uma coisa que eu gostei bastante é que não é um lugar de turistas. Evidentemente tem turistas, mas você vê muitas pessoas que moram lá e que simplesmente pegaram o fim de semana para passear.
E é interessante observar os donos, os colecionadores, as pessoas que têm esses objetos. São pessoas muito interessantes, às vezes até meio caricatas. Elas têm uma coisa enigmática.
Em uma dessas situações tinha uma mulher lotada de broches pela roupa inteira. Eu virei para o Tales e falei: "Olha só essa diva." Quando a gente passou por ela, ela falou em português comigo: "Eu nem acreditei quando ouvi você dizer que eu era uma diva."
Ela era uma das pessoas mais autênticas de lá. Tinha feito os próprios broches e a gente acabou ficando um tempo papeando. Foi uma surpresa muito agradável.
Cimetière du Montparnasse
Eu gosto muito dessa vibe de cemitério de figuras conhecidas. É como conhecer um famoso, de alguma forma, para mim. Era um dia horroroso, estava chovendo, fazia um frio do cacete e tinha todo um clima de cemitério acontecendo.

Eu vi pessoas que, puts... tinha a Agnès Varda, a diretora de cinema, tinha a Marguerite Duras, o Julio Cortázar. A gente passou algumas horas lá tentando achar as pessoas. E é legal se perder naquele cemitério. É quase impossível não ficar olhando cada nome, ver se você reconhece alguém, ver se tem alguma pessoa conhecida, famosa, que você estudou e que está ali.
Tem também um túmulo dividido entre o Sartre e a Simone de Beauvoir, que é, enfim... aquele casal. AQUELE CASAL, né? E, cara, é um túmulo horroroso. Horroroso. Todo recheado de beijinhos de batom. Eu fiquei decepcionada, fiquei pensando: "Nossa, eles não merecem isso."
A gente ficava relacionando os túmulos com a personalidade da pessoa, sabe? Nossa, eu me empolgo muito falando disso porque é como se eu tivesse conhecido famosos mesmo. E não só famosos. É como se eu tivesse conhecido pessoas que eu não teria nenhuma oportunidade de conhecer. Pessoas de outros tempos, assim. Muito foda.
É muito louco me ver falando disso, porque eu estou falando de túmulos, né?
Mas a pessoa que eu mais queria encontrar era a Susan Sontag. Ela é uma ensaísta, militante e teórica norte-americana. Trabalhou muito com fotografia e é uma figura bastante importante do campo da arte, principalmente da fotografia.
E foi o único dos túmulos que a gente estava procurando — olhando no mapinha, indo atrás — que a gente não localizou. Na verdade, foi ela que encontrou a gente.
A gente estava procurando outro túmulo quando eu virei para o lado e vi, pensei: "Caralho. Essa mulher foi enterrada aqui."
Muito, muito, muito foda.

Au Vieux Campeur
Eu escalo, então não podia deixar de falar do Au Vieux Campeur. Quando a gente pensa em loja de esporte, pensa numa Decathlon, que vende de tudo um pouco. Mas o Au Vieux Campeur é diferente.
É uma rede imensa que ocupa vários quarteirões e, pelo que eu entendi, só existe em Paris. O mais impressionante é justamente o nível de especialização: tem loja só de escalada, só de mergulho, só de ciclismo, só de alpinismo.
Era um negócio que eu nunca tinha visto. A gente não tem algo assim no Brasil.

Cara, para quem gosta do esporte, essa rede é uma mina de ouro. Tem coisas muito específicas. Na loja de escalada tinha até uma mini paredinha para testar as sapatilhas. Igual quando você experimenta um sapato e dá uma andada para ver se está confortável, apertado ou largo. Só que ali você podia testar escalando.
É fantástico.
Hôtel Exquis
A gente escolheu o Hôtel Exquis por um motivo bem prático: ele era próximo da estação de trem que a gente precisava pegar para ir para Genebra depois, ficava numa região legal e parecia um hotel bonitinho.
Ele fica no 11º arrondissement, uma região super jovem, com uma vida noturna muito legal. Não é uma área tão turística porque não tem aqueles pontos clássicos que todo mundo visita. Então acho que é um lugar que vale a pena. O que pegou a gente foi descobrir que ele era meio um hotel boutique. E não era um hotel caro.
Ele é muito fofo, muito cheio de personalidade. Você vê que cada cantinho foi pensado. Os quartos são pequenos, cada um é diferente e todos têm alguma obra de arte na parede. Papel de parede para tudo quanto é canto, cores vivas. O chuveiro do nosso quarto ficava praticamente dentro do quarto e tinha uns pontinhos de luz no azulejo. Era uma graça, eu super voltaria a ficar lá.


E a moça que servia o café da manhã ouviu a gente falando português e começou a falar português com a gente também. Se não me engano, ela era de Cabo Verde. Foi uma surpresa super agradável porque, por mais que a gente fale francês, quando encontra alguém que fala português — ainda mais alguém que fala português, mas vem de outro lugar — existe uma identificação, mas também uma troca diferente.
Bouillons
Eu demorei para entender que Bouillon não é uma rede de restaurantes. É um tipo de restaurante. Pelo que eu li, eles surgiram no século XIX com a intenção de servir comidas rápidas, simples e acessíveis. E isso se mantém até hoje.
Para a gente, que obviamente não recebe em euro, era perfeito quando não queríamos gastar muito ou queríamos fazer uma refeição rápida. A gente comeu em Bouillons várias vezes durante a viagem.
São restaurantes muito franceses, mas eu, que sou vegetariana, super conseguia comer bem. Tem várias opções e são comidas muito boas. Os ovos com maionese, que parecem ser uma febre por lá, viraram um dos meus favoritos.
Eu lembro de uma vez em que pedi um vinhozinho super barato, ovos com maionese, sopa de cebola, um suco de laranja, prato principal e sobremesa. E você gasta o que gastaria em um único prato em outros restaurantes. É babado.
A gente foi em vários contextos diferentes: no almoço, no jantar, em família, só nós dois, com amigos e até para comemorar o noivado do irmão do Tales em Paris.
Então, talvez não seja o lugar para uma ocasião especial.
Ou talvez seja também.
Airbnb
Eu decidi falar sobre o Airbnb em que a gente ficou porque foi um lugar muito especial para mim. Foi uma experiência parisiense também, sabe?
O dono do apartamento se chama Nathan e, apesar de a gente nunca ter se conhecido, deu para sacar que ele tem muita personalidade. A gente foi montando essa pessoa pelos livros, pelos pôsteres e pelos vinis espalhados pela casa. A gente acha que ele é musicoterapeuta, mas tudo isso foi dedução nossa.
Tinha coisas ligadas à música por todo lado e um dos discos aos quais a gente mais se apegou durante a viagem foi o Plantasia. Eu acho que, se essa viagem de Paris tivesse uma trilha sonora, seria a desse disco, porque a gente ouviu bastante ele naquele Airbnb.
Era um apartamento muito pequenininho, com uma varandinha clássica de Paris e um lugar de muita personalidade. A gente ficava meio capturada pelos vinis, pelos livros e tentando imaginar quem era aquela pessoa. E eu acho que isso fala muito sobre Paris. Tipo: tenta me decifrar.
Tem uma coisa do voyeurismo, dos apartamentos com as janelas abertas, desse "olhe para dentro", sabe?
Link Airbnb

Passear pelo Sena (Île de la Cité + Pont Neuf)
Passear pelo Sena talvez seja um clichê parisiense. Mas tem uns clichês que continuam sendo muito bons e que dependem muito da experiência que você tem no lugar.
Tem algo meio melancólico ali. Algo meio poético também. É um lugar para pensar: quantas pessoas passaram por aqui? Quantas coisas foram produzidas aqui? Quantas ideias que hoje a gente estuda não foram feitas aqui?
É muito fantástico, porque eu não sei... é como se eu gostasse de experimentar esse tipo de história, que é quando você pisa na história, quando você encosta na história, a história está em volta de você e você acaba sendo contaminado por ela, sabe?

A parte do Sena por onde a gente andou fica na Île de la Cité, uma pequena ilha no meio da cidade, onde Paris surge. É bem bonito. E foi justamente na pontinha dessa ilha que a gente foi parar. Tinha uma árvore lindíssima, não tinha ninguém ali, só uma pessoa sentada, ouvindo música e olhando para o nada.
Placa do Jacques Lacan
Tem um lugar que talvez nem seja exatamente uma indicação, pelo menos não da forma tradicional. Foi uma experiência muito pessoal, que foi passar em frente ao lugar onde Lacan atendia. Na entrada do edifício, existe uma placa indicando que Jacques Lacan atendeu naquele endereço de 1941 até sua morte, já nos anos 80.
Fiquei procurando aquela placa quase como quem procura um túmulo ou uma lápide. E quando finalmente encontrei, foi novamente aquela sensação estranha de encontrar alguém que, de algum modo, já era conhecido.
Fiquei ali parada, olhando. E eu nem sei explicar exatamente o que senti.
A minha clínica se baseia em toda a teoria que esse cara construiu ao longo de décadas. Eu continuo estudando Lacan e o que ele produziu. A minha escuta clínica, a minha ética clínica, tudo gira em torno do que o Lacan produziu.
Então foi muito louco estar ali. Me emocionei muito.
É como encontrar alguém que você jamais encontraria. Só de ver a placa, só de estar diante do lugar onde ele escutava as pessoas.
Foi muito especial.
